O uivo que virou contra a Alcateia

28 de out. de 2026 · @lopeslailah

Pelos olhos da Imagem Reversa: o que a neurociência e a psicanálise dizem sobre o som que uniu um grupo e afastou o público em A Fazenda 18.

Pense num uivo. Antes de qualquer opinião sobre ele, alguma coisa já se mexeu em você. Um pequeno alerta, um incômodo sem nome.

Em A Fazenda 18, um grupo transformou esse som em marca registrada. A Alcateia uivava nas votações, nos apontamentos, nas comemorações. Do lado de fora, o público desenvolveu um ranço tão rápido quanto intenso.

A pergunta desta coluna é simples: foi só o comportamento do grupo, ou o som fez um trabalho silencioso dentro da cabeça de quem assistia? A resposta curta é que o uivo não criou a rejeição sozinho. Mas ele a amplificou, e a resumiu em um único símbolo.

Do insulto à identidade

A Alcateia nasceu de uma briga. Ao descobrir que não estava entre as seis prioridades de Jottapê, Alfredo Amaral o chamou de lobo em pele de cordeiro. Jottapê pegou o insulto e o transformou em nome. Com Thaíde, Igor, Rikardo, Mônica e Fran, criou a Alcateia.

Vieram depois Renata e Giovanna Gold. Vieram o uivo coletivo para comemorar conquistas, o "batismo" de novos membros e um período de teste para os agregados, como Murilo e Catherine. No dia 25, foi a vez de Serginho entrar oficialmente.

Aqui fora, a reação veio rápido. Nas redes, o grupo passou a ser chamado de seita. E veio a conta: Igor saiu com 10,07% dos votos, Jottapê bateu o sino no dia seguinte, Catherine saiu com 13,98%. Nesta semana, Giovanna Gold está na Roça.

O ouvido não tem pálpebra

Dá para fechar os olhos diante de uma cena. Não dá para fechar os ouvidos. A audição evoluiu como alarme: o galho que quebra, o predador que se aproxima, o grito de alguém do grupo.

Por isso o som tem um atalho no cérebro. O neurocientista Joseph LeDoux descreveu a "via curta": a informação sensorial vai do tálamo direto para a amígdala, nossa central de alarme, antes de chegar ao córtex, onde pensamos. O corpo reage ao som antes de você decidir o que acha dele.

O uivo não é um som qualquer. É alto, prolongado, coletivo e animal. Ninguém na plateia tem medo de lobo, mas o cérebro primitivo marca esse tipo de som como sinal de que algo está acontecendo. A tensão chega antes da opinião.

E então entra o momento em que a Alcateia uivava: nas votações, nos apontamentos, quando alguém de fora ia para a Roça. É o princípio do condicionamento descrito por Pavlov. Um som repetido junto de uma situação passa a disparar a emoção daquela situação. Em poucas semanas, o uivo deixou de ser som e virou sinal: o grupo grande está vencendo o pequeno. A Alcateia criou, sem perceber, uma vinheta às avessas. Uma marca sonora de rejeição.

O som que une por dentro e afasta por fora

Pesquisas sobre canto em grupo, como as do antropólogo Robin Dunbar e sua equipe em Oxford, mostram que produzir sons sincronizados com outras pessoas aumenta a sensação de vínculo. É por isso que torcidas cantam, que exércitos marcham cantando, que religiões cantam juntas.

Para quem estava dentro da Alcateia, o uivo funcionava. Dava pertencimento, força, a sensação de família.

Para quem estava fora, dentro ou fora da casa, o mesmo som dizia outra coisa: vocês não fazem parte. O som que cola o grupo é o mesmo que expulsa quem está de fora. E o público, assistindo do sofá, se identifica naturalmente com quem está de fora.

Totem, horda e a voz sem palavra

Em Totem e Tabu, de 1913, Freud descreveu grupos que escolhiam um animal como totem, o símbolo do clã que todos imitam e veneram, organizados em torno de um líder forte. Olhe para a Alcateia: um animal-totem, o lobo. Um líder, Jottapê. Um ritual de iniciação, o batismo. Um período de prova para os agregados. Um som coletivo de pertencimento.

Em 1921, em Psicologia das massas e análise do eu, Freud foi além: dentro da massa, o indivíduo regride e abre mão de parte do próprio julgamento. O uivo é o símbolo perfeito disso. Ninguém uiva sozinho. Uivar é deixar de ser indivíduo e virar bando. O público percebeu a estrutura antes de nomeá-la, e por isso a palavra que pegou foi seita.

Há ainda duas camadas. Lacan pensou a voz como algo que nos atravessa sem pedir licença. Uma fala com palavras se discute; um uivo não tem argumento para rebater, ele só invade. E Freud descreveu o estranho, o desconforto de quando o familiar se torna estranho: adultos conhecidos, alguns famosos, de repente se comportando como animais. Esse desconforto, a gente traduz como vergonha alheia.

Por fim, a condensação: um único símbolo que concentra muitos significados. O ranço não veio só do som. Veio do batismo, da votação em bloco, da arrogância percebida. Mas o uivo condensou tudo isso. Quando o público ouvia o uivo, ouvia tudo ao mesmo tempo.

A imagem reversa: o uivo roubado

E então veio a virada. No dia 14, Alfredo venceu a Prova do Fazendeiro contra Igor e entrou na sede uivando. A Alcateia achou que era Igor, uivou de volta e chegou a pular. Quando viu Alfredo, a comemoração virou velório.

O símbolo que o grupo criou para mostrar força foi roubado e devolvido como piada. Isso revela uma lei do comportamento de grupo: quando um símbolo de identidade fica forte demais, ele deixa de pertencer ao grupo e passa a pertencer a quem o observa. Rivais e público passaram a definir o que o uivo significava. E ele passou a significar rejeição.

Isso não acontece só em reality. Todo grupo tem seus uivos: a piada interna, o grito de guerra, o meme da firma, o apelido que só a turma entende. Por dentro, eles unem. Por fora, podem gritar "você não é dos nossos". Da próxima vez que o seu grupo tiver um ritual, vale perguntar: quem está ouvindo isso de fora, e o que está sentindo?

Porque comportamento não mente.


Lailah criadora da Imagem Reversa, metodologia que analisa o comportamento humano pela psicanálise, pela neurociência e pela análise corporal. Porque comportamento não mente.

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