O que faltou dizer de Giovanna Gold

30 de out. de 2026 · @lopeslailah

Seis décimos, 47 dias e uma novela das seis dentro de um reality.

A diferença foi de 0,6 ponto percentual. Giovanna Gold deixou A Fazenda 18 com 27,12% dos votos, Darlin Ferrattry ficou com 27,72%, e uma temporada inteira de barulho se resolveu no espaço de uma unha. Quem já perdeu alguma coisa por detalhe sabe o gosto que isso tem.

Vale voltar ao começo, porque o começo explica quase tudo. Ela não entrou pela porta da frente. Era uma das visitantes que disputavam vaga no elenco oficial e o público a colocou dentro da casa com 44,14% dos votos, o tipo de estreia que faz a produção sorrir e o sofá de casa escolher um lado. Nas primeiras semanas, era favorita. Daquelas que a família toda defende no almoço de domingo, mesmo sem assistir.

E aí veio a água. A primeira grande cena dela na Fazenda foi uma provocação com água no rosto, com Darlin Ferrattry. Só para registro histórico: a mulher que ficou marcada por uma novela de areia e mar iniciou sua trajetória no reality molhada e em conflito. O universo tem senso de humor.

Do episódio da água nasceu a rivalidade que sustentou a temporada. Foram 47 dias de um enredo que Giovanna escrevia, revisava e interpretava em voz alta, sem descanso e sem contra-regra. Chamou Darlin de demônio. Bateu de frente com gente da própria aliança, a Alcateia, que passou boa parte do jogo tentando segurar a peoa enquanto ela mesma abria a porta. Em setembro, um ataque que envolveu a filha de Darlin fez a rival tocar o sino e quase desistir do programa. Em outubro, a conta chegou.

Agora o que precisa ser dito, porque coluna que só passa a mão na cabeça não serve para nada. Em 20 de outubro, na discussão com Mayk Leão, Giovanna fez comentários sobre o corpo e a orientação sexual dele. Mayk a acusou de homofobia, Adriane Galisteu interveio ao vivo e a Record aplicou uma advertência pública, com aviso claro de que discriminação poderia custar a expulsão. Foi feio, foi desnecessário e não se explica por cansaço, fome ou jogo. Na terça, ela se declarou bissexual ao responder às críticas. Na quarta, disse a Daniel Erthal que a comunidade gay teria mais dinheiro por não precisar criar filhos. Duas frases em dois dias que revelam o mesmo mecanismo: pensa em voz alta, no palco, com o país assistindo. Não é maldade calculada, é falta de filtro com legenda em tempo real.

O fim foi tecnicamente cruel. Nove votos na sede, veto de Ana Bruna na Prova do Fazendeiro, e a certeza de que a única forma de escapar seria o carinho do público. Não veio. Maíra Charken voltou primeiro para a Sede. Na Varanda da Verdade, Giovanna reconheceu: "Eu peguei muito pesado". Galisteu, que assistiu tudo de camarote, foi cirúrgica: "Eu senti falta da Giovanna que entrou na Fazenda, que eu ria, que me divertia. Isso foi sumindo".

E é aqui que entra o que faltou dizer.

Em 1993, Giovanna Gold viveu Alzira em Mulheres de Areia, a Magrela, moça simples que trabalhava na casa de Donato e era apaixonada por Tonho da Lua. Tonho da Lua amava Ruth. Alzira amava sozinha, de longe, do jeito que a novela das seis gosta de contar. Detalhe que pouca gente lembra: ela havia sido convidada para outro papel, o de Glorinha, e terminou como Alzira. E mais: no fim da novela, Alzira deveria aparecer ao lado de outro homem. Giovanna não concordou com o desfecho e mudou o destino da personagem junto ao diretor. Guarda essa informação, porque ela é a chave de tudo.

Trinta e três anos depois, a Magrela voltou para uma casa onde ninguém escolhe quem ama, mas todo mundo escolhe quem ataca. E ela escolheu não ser mais a moça da janela. A peculiaridade da performance de Giovanna em A Fazenda 18 é simples e quase ninguém nomeou: ela não jogou o jogo, ela fez dramaturgia. Reality tem um problema crônico de roteiro, porque ninguém sabe qual é a cena e todos querem a cena. Giovanna sabia. Chegava, montava o conflito, criava o corte, dava a fala de saída. A casa passou a girar em torno dela, inclusive quem não suportava a presença dela. Isso é talento, e é também o motivo do desgaste.

Um aliado resumiu o fenômeno com a melhor expressão da temporada: "adolescente de 62 anos". É exatamente isso. A mulher que passou a novela inteira amando um homem que amava outra decidiu, em 2026, ocupar o centro da cena por 47 dias seguidos, com energia de quem tem 16 e repertório de quem tem cinco novelas no currículo. Deu certo até o momento em que o preço ficou alto, porque humor e limite moram em ruas diferentes e ela atravessou sem olhar.

O que faltou dizer de Giovanna Gold é que a Magrela cresceu. E que a menina que nunca foi escolhida fez o país inteiro escolher um lado por quase dois meses. Em 1993 ela amou quem amava outra. Em 2026, escolheu uma rival para chamar de enredo. Se isso não é evolução de personagem, eu não sei o que é.


Lailah criadora da Imagem Reversa, metodologia que analisa o comportamento humano pela psicanálise, pela neurociência e pela análise corporal. Porque comportamento não mente.

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