O que faltou dizer de Rikardo Negro
07 de novembro de 2026 · @lopeslailah, Neuropsicanalista
O
homem que aguentou 100 horas no Quarto Branco e não aguentou o próprio jogo
Rikardo
Negro chegou a A Fazenda 18 com um currículo que impressionava. Modelo,
ex-jogador profissional de basquete, ex-bombeiro da Eliana, protagonista de
clipe do Zé Felipe. E, principalmente, o cara que passou mais de 100 horas
confinado no Quarto Branco do BBB 26 — um teste de resistência mental que
pouquíssima gente encara.
Saiu
na sétima roça, com 11,32% dos votos. E o motivo da saída foi, no mínimo,
irônico: o homem que provou que aguentava ficar trancado sozinho num quarto
branco por quatro dias foi eliminado por não ter se posicionado o suficiente.
De
Niquelândia para o Brasil
Nascido
em Niquelândia, no interior de Goiás, e morador de Aparecida de Goiânia,
Rikardo começou no basquete aos 17 anos, em Macaé. Rodou o Brasil em
competições, foi melhor marcador, melhor jogador e campeão de enterradas.
Encerrou a carreira no Vila Nova e migrou para a moda, com campanhas no México,
Uruguai, Estados Unidos e uma temporada vivendo na China.
Na
TV, ficou conhecido como um dos "bombeiros da Eliana", no SBT. Em
2026, ganhou repercussão nacional ao resistir mais de 100 horas na Casa de
Vidro do BBB 26 — mas não conseguiu uma vaga na casa. A Fazenda 18 virou,
então, a segunda chance de entrar de verdade num reality.
E
ele começou bem. Na primeira semana, venceu Ariela Carasso na Prova do Jacaré
Rural e garantiu imunidade, escapando da primeira roça. Depois, venceu a
segunda Prova de Fogo, superando outros 11 participantes e levando o Lampião do
Poder.
O
episódio que definiu sua passagem
Se
Rikardo tivesse saído da casa em setembro, seria lembrado por uma coisa só: a
acusação de racismo contra Serginho Hondjakoff.
Tudo
começou numa conversa sobre jogo. Rikardo disse a Fran Almeida que achava que
Serginho seria eliminado, porque "não está jogando". Segundo ele,
Serginho ficou vermelho e respondeu: "Quem é você lá fora? Eu sou o
Cabeção". E, na sequência, veio a frase: "Vai dançar seu axé na
Bahia, seu pangaré baiano".
Rikardo
é goiano. E é negro. Foi exatamente essa a pergunta que ele fez:
"O
cara sabe que eu sou goiano. Por que eu sou pangaré baiano? Por que eu sou
preto? Isso é racismo."
Ele
não guardou para depois. Na dinâmica Aponta Peão, ao vivo, em 28 de setembro,
expôs tudo na frente de todo mundo: "Você passou por mim e falou: 'Pangaré
baiano'. Seja homem e assuma o que falou". Serginho respondeu que não teve
intenção racista, que achava que ele era baiano. Rikardo não recuou: "Mas
isso é racismo. Quem é racista não quer ser. Eu te zoei alguma vez? Nunca te
chamei de branquinho".
A
dinâmica terminou com Serginho recebendo dez apontamentos — o maior número da
atividade — e sendo obrigado a carregar peso até a formação da roça. Murilo
Dias, Tina Calamba e Thaíde engrossaram o coro. Foi o momento em que Rikardo
foi mais protagonista em toda a temporada.
O
problema é que, depois disso, ele praticamente desapareceu do jogo.
O
lobo que não uivou
Rikardo
era da Alcateia. Estava entre as prioridades de Jottapê desde a formação do
grupo, ao lado de Igor Monteiro, Thaíde, Mônica Fonseca e Fran Almeida. Uivava
com os lobos, votava com os lobos, seguia a estratégia dos lobos.
Só
que ser lobo na Alcateia significava, na prática, jogar a favor de outra
pessoa. E a temporada foi cobrando esse preço. Quando Jottapê saiu, o grupo
perdeu articulação — o próprio Rikardo admitiu depois: "A saída do Jottapê
abalou o nosso grupo. Ele era um jogador bom, articulado ali. E, quando saiu,
deu uma abalada".
Ele
também virou meme após perder a Prova do Fazendeiro errando perguntas básicas
sobre quantos ossos tem o corpo humano e quando Cristóvão Colombo descobriu as
Américas. Ganhou provas no começo, mas passou a ser vetado com frequência
justamente porque era bom nelas.
Chegou
à sétima roça do jeito mais simbólico possível. Empatou com Alfredo Amaral em
cinco votos cada. Ana Bruna, a Fazendeira, desempatou e escolheu ele. Rikardo
ainda reagiu com o Poder da Chama Vermelha: tirou o veto de Renata e colocou
Eduarda fora da Prova do Fazendeiro. Estratégia legítima, mas que não o salvou
— ele foi o primeiro eliminado da prova, com a cadeira no nível mais alto e um
banho de gosma.
O
discurso que explicou tudo
Antes
de anunciar o resultado, Adriane Galisteu deu o diagnóstico mais preciso da
temporada:
"Dá
para ver o medo de ir embora nos olhos de vocês. Os três jogam de um jeito
muito tímido, muito discreto, falta posicionamento. A Fazenda pede
protagonismo. Está mais do que na hora do cada um por si. Quem só joga pelo
grupo abre mão de assumir o papel principal da própria narrativa."
Para
Rikardo, o recado foi específico: ele era apaziguador demais e faltava falar
diretamente com os adversários quando o jogo exigia.
E
o mais duro é que ele concordou. Na Cabine de Descompressão, admitiu que não
esperava sair — "eu tinha quase certeza" de que Eduarda seria
eliminada — e reconheceu o próprio erro: "Eu sinto que tinha estratégia
com o grupo, mas faltaram embates sozinho".
Ainda
defendeu o que fez: "Esse sou eu, eu agi com a minha verdade, aquilo que
eu acredito". Mas a frase anterior já dizia tudo.
O
que fica
Rikardo
Negro saiu de A Fazenda 18 com 11,32% dos votos e com a Alcateia mais uma vez
enfraquecida. Antes de ir, deixou imunidade para Renata Del Bianco e R$ 5 mil
para Eduarda Braum — lealdade ao grupo até o último ato, mesmo quando a
lealdade ao grupo foi justamente o que o tirou do jogo.
É
uma história com uma ironia cruel. O homem que provou ser capaz de aguentar 100
horas sozinho num quarto branco, sem ninguém, sem estímulo, sem saída, entrou
num reality de convivência e escolheu não ficar sozinho em nenhum momento. Se
escondeu atrás do grupo. Deixou os outros falarem por ele. E, quando finalmente
falou — sobre o racismo, com coragem e clareza —, foi o melhor momento dele no
programa.
Só
que um bom momento não sustenta uma temporada inteira. A Fazenda não premia
quem aguenta calado. Premia quem se posiciona.
Lailah criadora da Imagem
Reversa, metodologia que analisa o comportamento humano pela psicanálise, pela
neurociência e pela análise corporal. Neuropsicanalista inscrita no Instituto Latino-Americano de Saúde Mental.
Porque comportamento não mente.
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