O sino, a promessa e a alcateia

Pelos olhos da Imagem Reversa: o que a eliminação de Igor e a desistência de Jottapê revelam sobre grupos, líderes e fé dentro de A Fazenda 18.

Foram menos de doze horas. Na noite de quinta-feira, Igor Monteiro deixou A Fazenda 18 com 10,07% dos votos. Na manhã seguinte, Jottapê, o líder do grupo que se autodenominou Alcateia, bateu o sino e foi embora.

A explicação veio em forma de revelação: uma promessa feita a Deus antes do confinamento, que nem a esposa conhecia. Ele teria entrado no reality por causa de Igor. Com Igor fora, a missão estava cumprida.

Para a maioria do público, é uma história sobre fé ou sobre estratégia. Para quem estuda comportamento, é outra coisa. É um retrato raro, quase de laboratório, de como um grupo se forma em torno de um líder, de como esse líder fala com seus seguidores e do que acontece quando o enredo não sai como o previsto. Porque comportamento não mente.

O que aconteceu

A quarta Roça começou com um gesto de liderança. Fazendeiro da semana, Jottapê indicou Alfredo Amaral direto para a berlinda e resumiu sua lógica em uma frase: ele protegia a sua alcateia. Alfredo devolveu a acusação que pairava sobre o grupo há semanas: Jottapê não era o ditador da casa.

Na votação, Igor e Tina empataram com 11 votos. Darlin Ferrattry usou o poder do Lampião e transferiu os votos de Tina para Igor. Ele disputou a Roça com Eduarda Braum e Renata Del Bianco e saiu com 10,07%. Foi a primeira baixa da Alcateia.

Na madrugada, Jottapê reuniu o grupo, em lágrimas. Perguntou se todos confiavam nele. Disse que não queria que ninguém se sentisse traído, nem que achassem que era manipulação. Fran pediu que ficasse. Renata sugeriu que orasse antes de decidir. Catherine perguntou se ele não preferia enfrentar uma Roça. A resposta foi não.

Pela manhã, a conversa com Catherine completou o quadro. Ele disse que lançou a semente, que entrou no programa por Igor, que Deus o avisou que encontraria alguém que precisava. E acrescentou: aquilo fortalecia seu ministério. Saiu prometendo lutar pelo grupo do lado de fora.

O totem: um nome e um uivo

Grupos de reality existem desde sempre. Poucos se batizam. A Alcateia ganhou nome, um ritual (o uivo coletivo como marca de união) e uma linguagem própria: quem está dentro é protegido, quem está fora é alvo.

Nome, ritual e símbolo são os três primeiros tijolos de qualquer identidade coletiva forte, de torcidas a movimentos religiosos. Eles transformam uma aliança de jogo em pertencimento. E pertencimento é muito mais difícil de questionar do que uma estratégia.

Há uma ironia na escolha do símbolo. A ideia do "lobo alfa" que domina a matilha pela força foi abandonada pela própria ciência: o pesquisador que a popularizou passou décadas tentando desfazê-la, porque na natureza a alcateia é uma família guiada pelos pais, não por um tirano. O mito, porém, sobreviveu no imaginário. E é o mito, não a biologia, que se encena dentro de um reality.

Na leitura psicanalítica, Freud descreveu esse mecanismo em Psicologia das massas e análise do eu: os membros de um grupo colocam o líder no lugar do próprio ideal e, por isso, se identificam entre si. O laço não é só com o líder. É de cada um com os outros, através dele.

A palavra que não pode ser contestada

Antes de tudo, um limite: aqui não se julga a fé de ninguém. A conversão de Jottapê, que deixou o funk e passou ao gospel em 2025, é dele. O que se analisa é o comportamento, e a forma como a linguagem religiosa funciona dentro de um jogo de poder.

E ela funciona de um jeito muito específico. Em 6 de outubro, Jottapê arquitetou a própria ida à Roça, um "plano kamikaze" que nem os aliados entenderam. A justificativa: se voltasse com o chapéu, era vontade de Deus; se fosse embora, também. É uma frase que não pode perder. Qualquer resultado confirma o discurso.

A desistência repete a estrutura. A promessa era secreta, ninguém podia verificá-la, e foi revelada só depois do fato. Quem discorda não discorda de um homem, discorda de um compromisso com Deus. Em grupos de alta coesão, esse é o argumento mais poderoso que existe, porque não admite réplica.

Repare também no que veio antes de qualquer explicação: "não quero que pensem que é manipulação". Freud chamou de negação o movimento em que um conteúdo aparece justamente na frase que o recusa. Ninguém tinha falado em manipulação. Ele trouxe a palavra para a sala. Semanas antes, Daniel Erthal já o tinha chamado de lobo em pele de cordeiro. A dúvida existia; o líder só se antecipou a ela.

Quando a profecia falha

Em 1956, o psicólogo Leon Festinger publicou um estudo sobre um pequeno grupo que esperava o fim do mundo numa data marcada. A data passou e nada aconteceu. O grupo não se desfez. Pelo contrário: reinterpretou o fracasso como prova de que sua fé havia salvado o planeta, e passou a pregar com mais força. Nascia ali o conceito de dissonância cognitiva.

A lógica é simples. Quando a realidade contradiz algo em que investimos muito, é mais barato mudar a interpretação do que admitir a perda.

Olhe para a semana da Alcateia por essa lente. O grupo apostava que Igor e Renata voltariam da Roça. Igor caiu com a menor porcentagem. Para um líder, essa é uma derrota pública: o protegido dele foi rejeitado pelo público. Horas depois, a mesma eliminação virou outra coisa: o encerramento de uma missão. Não se perdeu um aliado; cumpriu-se um propósito.

A Imagem Reversa não afirma que Jottapê mentiu. Afirma que o enredo foi reconstruído de forma que nenhuma derrota sobrasse. Sincera ou não, a narrativa cumpre a mesma função psíquica: transforma a saída de cena em vitória e protege a imagem do líder intacta.

O líder ausente

Há um detalhe que pouca gente notou. Jottapê não saiu dizendo adeus. Saiu prometendo continuar: vai acompanhar, vai lutar, vai ajudar. O líder deixa a casa, mas não deixa o posto.

Um líder ausente costuma ser mais forte do que um presente. Não erra mais, não é confrontado ao vivo, não perde prova. Vira ideal puro. Para quem ficou, ele passa a ser uma voz à qual se presta contas, e o pedido de despedida ("sejam leais, não mudem") funciona quase como um mandamento.

A Alcateia agora tem dois caminhos. No primeiro, sem o centro que a mantinha unida, ela se fragmenta: Fran, Mônica, Rikardo, Thaíde, Renata e Giovanna Gold precisam descobrir se eram um grupo ou só orbitavam alguém. No segundo, seguindo a lógica de Festinger, a perda vira combustível. O grupo se fecha, se radicaliza e passa a jogar "pelo Jottapê".

Os primeiros sinais já apareceram. Giovanna Gold atribuiu a Darlin a responsabilidade pela saída dele, o movimento clássico de grupos coesos diante de uma perda: encontrar um culpado do lado de fora. E a Herança do Eliminado deixou Renata com o poder de imunizar Giovanna na próxima Roça, enquanto Eduarda vai prejudicar alguém na Prova de Fogo de domingo. A matilha perdeu dois lobos em doze horas, mas ainda tem dentes.

O que fica

O reality é uma lente de aumento. O que aconteceu na Alcateia não é exclusividade de A Fazenda: acontece em empresas, famílias, grupos de amigos e igrejas. Um nome que cria pertencimento. Um líder cuja palavra não se discute. Uma derrota recontada como missão. Um seguidor que, quando o líder sai, continua obedecendo.

A pergunta da Imagem Reversa nunca é "quem é o vilão". É "que mecanismo está operando aqui". Porque, quando se aprende a reconhecer o mecanismo na tela, fica muito mais fácil reconhecê-lo na própria vida.

E, na própria vida, não tem sino para bater.


Lailah criadora da Imagem Reversa, metodologia que analisa o comportamento humano pela psicanálise, pela neurociência e pela análise corporal. Porque comportamento não mente.

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