Do acerto de “Final Feliz” ao desastre de “Anna Júlia”: o que funcionou nos Clássicos  

A proposta era boa: pegar músicas que todo mundo conhece e obrigar os participantes do Estrelas da Casa a fazer algo diferente com elas. A primeira noite de Clássicos, porém, mostrou justamente o risco desse tipo de desafio. Quando uma releitura encontra uma identidade, ela pode valorizar um grupo. Quando não encontra, parece simplesmente que alguém desmontou uma música boa e não soube exatamente como montar novamente.

Foram seis apresentações, passando por Los Hermanos, Alceu Valença, Jorge Vercillo, Charlie Brown Jr., Fagner e Djavan. E a sensação deixada pela noite foi bastante irregular. Houve grupos que pareceram encontrar um caminho mais natural e outros nos quais a tentativa de “fazer diferente” chamou mais atenção do que os próprios cantores.

“Anna Júlia”: o primeiro tropeço da noite

O Pagode abriu com Arthur Belmonte, Dan Ferrera, David Natel e Uel cantando “Anna Júlia”. Foi justamente uma das apresentações que mais provocaram estranhamento.

A divisão das partes e a forma como a música foi remontada deram ao número uma sensação excessivamente fragmentada. Em vez de quatro integrantes funcionando como um grupo, em alguns momentos parecia haver quatro cantores esperando a própria vez de entrar. A reação foi particularmente dura, com críticas ao formato quase de “jogral” adotado pelo quarteto.

O principal problema talvez nem tenha sido vocal. Foi de conceito. “Anna Júlia” parece não ter ajudado o Pagode, e a tentativa de encaixar a música naquele universo soou muito menos natural do que outras escolhas da noite.

“Morena Tropicana”: melhor, mas ainda sem convencer

Na sequência, Álec, Filgueira, Gabriel Nandes e Yudchi receberam “Morena Tropicana”. Durante os ensaios, a proposta trabalhava sensualidade, presença corporal e até o famoso “ombrinho”, tentando transformar o clássico de Alceu Valença numa apresentação claramente moldada para um grupo Pop.

A ideia era interessante no papel, mas a execução também dividiu opiniões. Houve a percepção de uma melhora em relação ao primeiro número da noite, porém ainda sem aquela sensação de que a releitura havia descoberto algo novo na canção.

E aí surge uma questão importante para o programa: releitura não pode significar mudança pela mudança. Se o novo arranjo não melhora a música, não revela uma característica dos cantores e não cria uma identidade para o grupo, sobra apenas a impressão de exercício de oficina.

“Final Feliz”: quando a escolha ajuda o grupo

O cenário mudou bastante com Esther Nunes, Jefinho, Lukinhas e Vick Nunes em “Final Feliz”.

Entre as apresentações, esta apareceu como uma das que encontraram um encaixe mais natural. Existe uma razão: a composição de Jorge Vercillo já possui uma estrutura que conversa muito bem com uma adaptação para o pagode — e a música inclusive já ganhou anteriormente uma leitura no gênero por Alexandre Pires.

Aqui, o grupo não precisou lutar contra a música. E essa diferença foi perceptível. Em vez de a releitura parecer uma obrigação do desafio, ela fazia sentido musicalmente.

Isso também coloca uma pulga atrás da orelha: até que ponto estamos avaliando os grupos e até que ponto estamos avaliando quem recebeu a música mais favorável?

“Proibida Pra Mim”: Charlie Brown Jr. virou outra coisa

Depois veio Bruno Gadiol, Enzo Cespom, Laura Schadeck e Leonna com “Proibida Pra Mim”.

É um quarteto que já demonstrou força e foi escolhido pelo público para representar o programa no TVZ. Mas justamente por isso havia expectativa maior.

A opção por desacelerar e suavizar o clássico do Charlie Brown Jr. foi uma das escolhas mais comentadas. A releitura foi descrita como uma espécie de versão “church” da música, tamanha a mudança de clima em relação à energia característica da faixa original.

É um caso curioso porque a discussão deixa de ser “cantaram bem ou mal?”. O problema passa a ser: por que essa música precisava virar isso?

Uma releitura pode desmontar completamente o original, claro. Mas precisa oferecer alguma coisa igualmente forte em troca. Quando a mudança elimina a pulsação da canção sem construir outra personalidade tão interessante quanto, o resultado tende a parecer apenas mais comportado — e não necessariamente mais criativo.

“Espumas ao Vento”: Pagode volta para terreno mais confortável

Bruna Bento, Hanaya, Japa e Julliana Franco receberam “Espumas ao Vento”, de Fagner.

Comparada ao impacto negativo causado por “Anna Júlia”, a adaptação das mulheres encontrou um terreno muito mais favorável. Entre os três quartetos do Pagode, ficou evidente como o repertório teve peso enorme no resultado: as formações que não precisaram enfrentar “Anna Júlia” saíram beneficiadas pela própria capacidade das músicas de aceitarem uma nova roupagem.

E talvez esta seja uma das primeiras lições dos Clássicos: nem toda grande música é automaticamente uma boa música para um grupo.

“Lilás”: muita expectativa e uma chegada frustrante

O grupo formado por Cinara, Emma, Paula Tavares e Tori talvez seja o caso mais curioso.

Antes da apresentação, a formação vinha despertando interesse. Durante os ensaios, havia comentários bastante positivos sobre a combinação das quatro e expectativa de que aquele pudesse se tornar um dos melhores quartetos do Pop.

Só que “Lilás”, de Djavan, não teve a mesma recepção. A adaptação foi duramente criticada e chegou a ser resumida com a provocação de que haviam conseguido “estragar Djavan”.

Foi justamente depois da última apresentação que Aline Wirley fez a avaliação mais reveladora da noite. Ela reconheceu que existe talento, mas admitiu sentir que estava faltando alguma coisa nas apresentações: havia todos os ingredientes, porém o resultado ainda não parecia completo.

E talvez Aline tenha chegado perto do ponto principal.

Mas cadê os mentores?

Aqui aparece o problema que acabou se tornando quase tão comentado quanto as apresentações.

Júnior e Belo são os mentores dos grupos. Eles acompanham ensaios, participam da formação dos quartetos e futuramente terão poder sobre quem continua ou deixa a competição. Só que, quando chega o momento em que o público mais precisa entender a avaliação deles, frequentemente sobra pouco além de elogios.

“Foi lindo”, “vocês arrasaram”, “gostei muito”, “estão crescendo”.

Isso serve como incentivo. Como mentoria, serve muito pouco.

A reclamação apareceu de maneira bastante explícita durante a repercussão do programa. Houve críticas ao fato de Júnior e Belo considerarem praticamente tudo bom, mesmo em uma noite marcada por desafinações e apresentações desajustadas. Também apareceu a avaliação de que os dois talvez funcionassem melhor como jurados, justamente porque a atual função os deixa presos ao papel de quem precisa apoiar seus próprios grupos.

E aí existe um problema de formato.

Se Júnior é mentor do Pop, ele deveria poder dizer: “A divisão vocal aqui não funcionou”; “essa tonalidade prejudicou vocês”; “a coreografia engoliu a interpretação”; “essa releitura descaracterizou a música”; “vocês quatro individualmente são bons, mas ainda não estão cantando como um grupo”.

Se Belo é mentor do Pagode, deveria existir espaço para exatamente a mesma coisa.

Isso não é humilhar participante. É mentoria.

A falta que Anitta fez

A ausência de Anitta ajudou a evidenciar essa deficiência. Na primeira semana, ela havia criticado som, figurino, conceitos e decisões artísticas sem muito medo de contrariar ninguém.

Na noite dos Clássicos, diversos comentários destacaram justamente a falta desse contraponto. Aline tentou avançar um pouco além dos elogios, mas o tempo do programa chegou a interromper uma avaliação mais aprofundada.

O resultado foi estranho: o público estava vendo problemas que a bancada parecia não estar vendo — ou não estava querendo dizer que via.

E esse talvez seja o maior ajuste necessário no Estrelas da Casa.

O reality encontrou uma dinâmica interessante ao transformar cantores individuais em grupos, obrigando-os a negociar repertório, divisão vocal, coreografia e identidade. Mas, se a proposta também é mostrar a construção profissional de um grupo musical, o programa precisa deixar aparecer a parte menos confortável desse processo.

Nem tudo fica lindo.

Nem toda ideia funciona.

Nem toda releitura precisa ser defendida.

E mentor que só elogia corre o risco de virar exatamente aquilo que um programa de formação menos precisa: figurante de luxo sentado na bancada. 
 

Créditos/Fontes: Globo/gshow