Primeira noite definiu os 12 integrantes do Pop, mas falhas técnicas, apresentações irregulares, escolhas da produção e a saída do segundo homem mais votado acabaram dividindo as atenções com os candidatos.
O Estrelas da Casa 2026 finalmente começou nesta terça-feira (25), com a missão de selecionar os integrantes do grupo Pop. E, se a intenção da estreia era apresentar ao público o nível musical da temporada, o programa acabou oferecendo também material suficiente para uma discussão bem maior: problemas técnicos, escolhas questionáveis de repertório e figurino, candidatos prejudicados pelo próprio formato e uma eliminação que rapidamente ganhou ares de injustiça nas redes sociais.
A noite começou com Junior e os candidatos interpretando “I Gotta Feeling”, do Black Eyed Peas. Como cartão de visitas, achei fraco. Já apareceram ali problemas que continuariam durante boa parte do programa: dificuldades de afinação, pouca projeção e impostação vocal e, principalmente, um áudio que tornou bastante complicado entender o que cada candidato realmente estava entregando.
E aqui existe um problema importante: uma coisa é o participante cantar mal; outra é o telespectador não conseguir descobrir se ele cantou bem ou mal porque a mixagem não permite ouvir direito. A equipe de áudio da Globo teve uma noite péssima. Vozes baixas, instrumental engolindo candidatos e uma sensação constante de que alguma coisa estava errada na transmissão. Para um programa cujo principal produto é justamente a voz, é uma falha bastante grave.
Depois veio Anitta, com “Deus Existe”, e aí o nível subiu. A participação funcionou bem e ainda mostrou rapidamente algo que se tornaria uma das melhores surpresas da estreia: Anitta não parecia disposta a ocupar simplesmente aquela posição protocolar de convidada que elogia tudo e todo mundo.
Na interação com Ana Clara, inclusive, em alguns momentos me pareceu existir certo clima entre as duas. Nada que tenha comprometido a condução, mas houve respostas e pequenas situações que deram à conversa uma tensão curiosa. E isso acabaria ficando ainda mais evidente conforme Anitta começasse a verbalizar críticas à própria produção.
Na sequência, Junior e Belo dividiram o palco em “Só Hoje”. Particularmente, achei uma apresentação razoável. Não chegou a ser um desastre, mas também ficou longe daquele número que deveria estabelecer um padrão de excelência para candidatos que seriam avaliados logo depois. Nas redes, a percepção foi ainda mais dura: houve comentários de que a apresentação parecia pouco ensaiada e críticas a erros de Belo.
Então começou efetivamente a disputa.
Os primeiros candidatos foram Álec, Cinara, Tori e Yudchi, interpretando “Radar”. Achei a música muito chata naquele formato, talvez principalmente pelo arranjo, e novamente apareceram dificuldades de projeção vocal e afinação.
Só que qualquer avaliação precisa carregar um enorme asterisco: eles foram bastante prejudicados pelo áudio. Assistir a uma competição musical com uma mixagem em que as vozes não chegam corretamente ao telespectador é quase como transmitir uma prova de dança apagando metade das luzes do palco.
E foi justamente Anitta quem verbalizou parte dessa insatisfação. Gostei bastante da postura dela ao levantar o problema, porque seria muito mais fácil simplesmente avaliar os candidatos ignorando que a própria estrutura do programa poderia estar interferindo no resultado.
Depois vieram Emma, Momô, Paula Tavares e Vana J, com “APT.”. E os problemas continuaram. Outro arranjo que, na minha avaliação, não ajudou, além de notas semitonadas e uma apresentação que pareceu sofrer com a quantidade de coreografia imposta aos candidatos.
Esse é outro ponto que o programa precisa observar. Cantar e dançar simultaneamente exige preparação específica. Quando se coloca alguém que não possui esse treinamento para executar uma coreografia intensa, o resultado pode ser falta de fôlego, e isso aparece imediatamente na voz. Em vez de ajudar a construir uma apresentação pop, a dança pode acabar prejudicando justamente aquilo que deveria ser prioridade em uma competição musical.
O figurino desse número também não ajudou. Para mim, foi sofrível.
E novamente Anitta resolveu não fingir que estava tudo maravilhoso. A cantora criticou aspectos da produção, provocando uma resposta curiosa de Ana Clara: “Às vezes custa o contrato”. Foi uma daquelas interações que imediatamente chamam atenção porque fogem do discurso perfeitamente controlado que normalmente acompanha uma estreia.
A terceira formação reuniu Enzo, Gabriel, Filgueira e Rob Miranda em “Beautiful Things”. Talvez tenha sido o melhor grupo da noite — ou, sendo um pouco menos generoso, o menos problemático.
Foi justamente nessa apresentação que Anitta voltou a tocar na questão do áudio e também levantou outro ponto pertinente: os figurinos estavam deixando candidatos adultos com uma aparência adolescente demais.
A observação faz sentido porque fazer música pop não significa necessariamente vestir todo mundo como se estivesse montando uma boy band adolescente. O programa precisa descobrir a identidade desses artistas, e não simplesmente encaixá-los em uma concepção visual genérica do que seria “ser pop”.
A última apresentação reuniu Bruno Gadiol, Laura Schadeck, Leonna e Peu Heise, cantando “Señorita”. Na minha avaliação, foi talvez a pior apresentação entre os grupos. Faltou impostação vocal, houve problemas de afinação e o conjunto não funcionou como deveria.
Curiosamente, porém, a crítica de Anitta que ganhou maior destaque naquele momento não foi direcionada especificamente a uma suposta má apresentação de Peu Heise. Ela falou muito mais sobre conceito e produção e chegou a brincar que, ao ver os figurinos cor-de-rosa da introdução, imaginou que o grupo cantaria “Barbie Girl”.
Terminadas as apresentações, chegou a hora de montar efetivamente o grupo Pop.
O público garantia diretamente duas vagas. Tori, com 20,49%, foi a escolhida entre as mulheres, enquanto Enzo, com 18,23%, venceu entre os homens.
As vagas restantes ficaram nas mãos de Junior e Anitta, que selecionaram Álec, Bruno Gadiol, Cinara, Emma, Filgueira, Gabriel, Laura Schadeck, Leonna, Paula Tavares e Yudchi.
Do outro lado, Momô, Vana J, Peu Heise e Rob Miranda terminaram a estreia eliminados. E foi justamente aí que nasceu uma das maiores discussões da noite.
A eliminação de Peu Heise chama bastante atenção quando observamos a votação popular. Ele recebeu 16,54% dos votos e foi o segundo homem mais votado pelo público, ficando atrás somente de Enzo, que conseguiu 18,23%.
Mais importante: Peu recebeu mais votos do público do que vários homens que acabaram entrando no programa pelas escolhas posteriores. Ele ficou à frente de Bruno Gadiol, Álec, Yudchi, Gabriel, Filgueira e Rob Miranda.
A regra, evidentemente, permitia esse resultado. Somente o homem mais votado pelo público conquistava automaticamente uma vaga. Como Enzo ficou em primeiro, Peu voltou a depender da escolha dos responsáveis pela seleção e acabou eliminado.
Legalmente dentro da dinâmica? Sim. Estranho para quem acabou de votar? Também.
Não demorou para surgir nas redes sociais o discurso de que Peu teria sido “injustiçado”. Internautas começaram a destacar justamente a contradição de o segundo homem preferido do público ficar fora enquanto candidatos menos votados avançaram.
E há um detalhe que torna essa discussão ainda mais interessante. Na apresentação de “Señorita”, não houve uma crítica individual contundente de Anitta dizendo que Peu tinha sido particularmente ruim. O comentário que mais repercutiu tratava muito mais da concepção visual e da produção do número.
Isso não significa que Junior e Anitta fossem obrigados a seguir a votação. A dinâmica existia justamente para permitir escolhas independentes. Mas levanta uma questão sobre a própria lógica do formato: qual é exatamente o peso da preferência do público quando apenas o primeiro colocado está protegido?
Depois de definido o elenco, ficou mais fácil olhar para a estreia como um todo. E algumas críticas apareceram repetidamente.
A principal delas foi, sem dúvida, o som.
A mixagem prejudicou seriamente a experiência. Houve momentos em que as vozes pareciam baixas, abafadas ou simplesmente enterradas pelo instrumental. E não foi uma reclamação exclusiva de quem estava assistindo em casa: a própria Anitta apontou problemas durante o programa.
Isso compromete até a discussão sobre quem cantou bem ou mal. Se o público não recebe adequadamente a voz do candidato, qualquer avaliação passa a ser parcialmente contaminada por um problema que não é responsabilidade do artista.
Outro ponto foi a falta de harmonia entre algumas formações. Em determinados números, parecia existir mais uma reunião de quatro vozes tentando sobreviver ao mesmo arranjo do que propriamente um grupo. Vozes competindo, encaixes pouco naturais e uma sensação de pouco ensaio apareceram em vários momentos.
E aí chegamos a uma questão que considero fundamental para o futuro do programa.
O Estrelas da Casa está escolhendo integrantes para uma banda.
Isso significa que encontrar doze pessoas que cantam individualmente bem não necessariamente significa encontrar doze pessoas que cantam bem juntas.
Na estreia, entretanto, senti pouca preocupação em avaliar exatamente isso. Quais timbres combinam? Quem consegue fazer segunda voz? Quais candidatos possuem extensão vocal complementar? Quem funciona como apoio? Quem consegue dividir protagonismo? Como essas vozes se comportam em conjunto?
Parece que primeiro foram escolhidos os candidatos considerados mais interessantes individualmente e só depois o programa descobrirá se existe uma banda possível naquela seleção. Isso pode virar um problemão.
E a recepção da estreia também apareceu nos números. O programa marcou 11,6 pontos em São Paulo, abaixo das estreias das duas temporadas anteriores. Em 2024, foram 13,6 pontos; em 2025, 16,6. Portanto, considerando esses números, esta foi a pior estreia entre as três temporadas.
Isso não determina o destino da edição. Uma estreia pode ser corrigida, o público pode crescer e o programa ainda está apresentando sua proposta. Mas o número serve como alerta, principalmente diante de uma atração reformulada e que precisa convencer o telespectador a continuar acompanhando sua formação musical.
Curiosamente, uma das avaliações mais positivas da noite ficou justamente com quem não estava disputando vaga.
Anitta e Ana Clara ajudaram bastante a sustentar a estreia.
Ana Clara possui experiência suficiente para conduzir um programa ao vivo com naturalidade. Já Anitta trouxe algo que realities musicais muitas vezes perdem: espontaneidade. Em vez de elogiar automaticamente tudo o que aparecia diante dela, comentou figurino, questionou áudio, falou sobre produção e demonstrou incômodo quando achou necessário.
Foi justamente essa postura que gerou alguns dos momentos mais comentados da noite. Nas redes, houve até quem dissesse que voltaria a assistir simplesmente para acompanhar Anitta “metendo o sarrafo” naquilo que considerasse errado.
Talvez exista aí uma pista importante para o próprio Estrelas da Casa. O programa não precisa fingir que todas as apresentações são maravilhosas. Se o áudio está ruim, diga que está ruim. Se o figurino não funciona, diga que não funciona. Se as vozes não combinam, explique por quê. Uma competição musical fica muito mais interessante quando o público consegue entender os critérios utilizados, inclusive quando alguma coisa dá errado.
A estreia do grupo Pop, portanto, deixou uma sensação bastante dividida. Há candidatos interessantes e potencial para construir uma competição musical diferente, mas também ficaram evidentes problemas que precisam ser corrigidos rapidamente: áudio, arranjos, figurinos, excesso de coreografia para alguns candidatos, equilíbrio entre artistas conhecidos e desconhecidos e, principalmente, a construção de grupos cujas vozes realmente funcionem juntas.
E a eliminação de Peu deixa ainda uma pergunta importante para as próximas etapas. Se o programa pede ao público para escolher seus favoritos, mas permite que o segundo candidato mais votado de uma categoria seja eliminado enquanto vários menos votados continuam, será necessário deixar muito claro qual é o papel dessa votação dentro da seleção.
Porque formar uma banda não é simplesmente reunir os nomes que individualmente parecem melhores. É descobrir quem consegue transformar doze vozes em uma identidade.
Depois da estreia, o Estrelas da Casa já tem seus 12 integrantes do Pop. Agora falta descobrir se também tem uma banda.
Luís

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