12 dezembro 2013

Helder Miranda Comenta:
A coroação da princesa caipira


A coroação da princesa caipira




Quando saiu do “Aprendiz” pela segunda vez, Karine Bidart divulgou uma conversa interna entre os participantes do programa em uma entrevista. De acordo com ela, Melina Konstandinidis, a vice-campeã da última temporada, havia dito que Roberto Justus seria muito orgulhoso para contratar alguém que foi dispensado por João Dória Júnior, o apresentador que o substituiu nas temporadas anteriores durante uma estadia desastrosa no SBT. Foi essa espécie de “complô” que apontou a participante Daniely Zanotti, que foi longe em sua primeira participação e foi defenestrada logo de cara em seu retorno.

Realmente, nesta final havia dois pesos e duas medidas que pesavam contra as oponentes da noite. Renata Tolentino amargava uma derrota em plena final, quando foi dispensada por outro apresentador. Melina teria contra si o fato de ser casada com um vencedor do programa nas edições anteriores. Mas até o fim, Melina acreditava que Justus, orgulhoso, como foi apontado pela participante veterana, optaria por ela. Talvez pelo relacionamento que exista, já que o marido dela, Fábio Porcel, ao que tudo indica, ainda trabalha para Justus e Melina, de acordo com as palavras de Justus na final, tem uma empresa que presta serviços para ele.  

Quando se viu na final com uma participante menos experiente como Renata, ela pensou que a moça era inofensiva e que a final estava “no papo”. E deixou correr solto na final, apostando em sua experiência e o agravante de Renata não ter experiência em publicidade, como ela, uma publicitária formada. Mas não acredito que Renata foi contratada por Roberto Justus para desmentir a afirmação de que haveria um complô.

A tarefa da vez foi o lançamento de uma dupla sertaneja patrocinada por uma grande marca de cerveja, tendo com ajudante a protagonista da edição, Maytê Carvalho, que declarou ter se sentido representada com Melina na final, e o insosso terceiro colocado, Rodrigo Solano. Não entendi como alguém que se diz tão amiga, como Renata, não ter escolhido Solano para enfrentar Melina na final – já que ela teve essa chance e, na última sala de reunião, eles disseram que eram amigos. No penúltimo episódio, quando Renata e Solano disputavam a permanência na grande final, foi uma sala de reunião bonita de se ver, já que, talvez pela primeira vez na história do programa, ninguém puxou o tapete de ninguém. 

Quando teve a chance de escolher, Renata optou por outro que não fosse ele. Braga Júnior, que não entendi porque foi selecionado para esta tarefa, já que não se destacou no programa (seria disponibilidade, já que é o dono da própria empresa?), e Guilherme Séder que, fora da competição, aparenta ser uma pessoa muito mais leve: não aquele ser superestimado que, sob pressão, passa por cima de tudo e todos tentando abafar os próprios defeitos e que, justamente por isso, derrubou Karina Ribeiro, a vice-campeã da sexta temporada de “O Aprendiz”, que contava com uma boa torcida.

Na noite da final, o rosto de Melina não escondeu a decepção quando Justus finalmente anunciou que Renata Tolentino era a campeã, entre todos os aprendizes que retornaram ao programa. Ficou feio para ela não saber perder em rede nacional, assim como não se justificaram as humilhações da sala de reunião ao vivo, que foram desnecessárias - aquele circo de horrores deveria ter sido gravado. Numa final de reallity, seja ele qual for, não há premissa que justifique um ambiente tão hostil. Principalmente entra as duas oponentes, com Melina na defensiva, trocando farpas porque perdeu a prova e desmerecendo a cidade em que Renata atuou, enfim, um verdadeiro papelão. Mas a sala de reunião ao vivo é mais uma das coisas do Justus apresentador, que, por todas estas edições e, principalmente nesta, demonstrou que não resiste um “barraquinho”...

Foi uma espécie de momento cartão-de-crédito vê-la perder, quando ela estava visivelmente confiante em sua vitória perante a inexperiente, e até caipira, Renata. A reação de Melina por ter perdido demonstra muito bem o senso de superioridade que têm alguns paulistanos sobre quem chega na cidade de outros lugares – os, por assim dizer, “caipiras”. 

Na sala de reuniões da última tarefa, Renata, a líder que venceu mais tarefas em todas as edições do programa, segundo ela, inclusive a da prova final, conseguiu se defender melhor, chegando, inclusive, a impor seu ponto de vista a Justus, numa espécie de discussão perigosa para a grande final. Melina, por sua vez, adotou um tom blasé para todas as respostas, sob a capa de tentar ser objetiva demais, mas só mostrou ser mais antipática do foi captado durante todo o programa.

Foram 14 participantes, uma audiência pífia e uma equação de anunciantes que só é explicada pelo prestígio do apresentador. No antepenúltimo episódio, o programa perdeu sua protagonista, Maytê. Outro candidato ao prêmio, Evandro Banzatto, saiu de uma maneira feia, capaz de manchar toda a sua reputação profissional pelo fato de tentar camuflar a venda de bebida alcoólica a um menor de idade. Acredito que se ele tivesse assumido o erro de tentar realizar a venda – aliás, os dois grupos deveriam ter sido submetidos ao mesmo teste – a final poderia ser diferente. Vir com aquela desculpa esfarrapada que de não saber a idade certa de um menor de idade foi patético e o colocou no olho da rua e com a reputação abalada. 

Dentro daquele contexto, o que foi feito não foi para ganhar o programa, mas a prova. Dentro de um programa de confinamento, a não ser que os candidatos fossem colocados em um ambiente selvagem, não acredito em condições extremas. Todos os que aceitaram participar, até por estarem no programa pela segunda vez, sabiam o que os esperava. Dentro de um “Aprendiz”, estão confinados... mas bem alimentados e bem hospedados – o que, por si só, não é absolutamente uma condição extrema. É correto afirmar que, sob pressão, as pessoas mostram quem são, mas se todo mundo vive sob pressão, quem se sujeita a trapacear diante da câmera pode fazer até pior quando a testemunha é a própria consciência. 

Na final entre as duas mulheres havia dois perfis completamente discrepantes, que só poderiam ser comparados pela competência – e, mesmo assim, a vencedora do programa ainda assim sairia ganhando. O público torce por vira-latas, e não havia um pingo disso em Melina, nenhuma vulnerabilidade na “mulher de aço” que ela quis aparentar diante de Justus. Se aquela é a Melina real? Não sei e provavelmente nunca irei saber. Mas, dentro do que foi mostrado no programa, o que falta nela em simpatia, sobra em Renata. Talvez por essa característica, as pesquisas na internet corroboraram: queriam Renata como campeã. E ela realmente foi quem levou o prêmio de um milhão e os 260 mil reais de salário – se tiver décimo terceiro

Acredito, até, que a raiva de Melina não foi pelo emprego perdido. Afinal, nunca acreditei no discurso piegas, nem da própria última vencedora do programa, quando os participantes diziam que sonhavam em trabalhar com Roberto Justus, como se isso fosse uma missão de vida ou morte e todos fossem soldados dele. Ridículo. 

A raiva de Melina, sob o meu ponto de vista, seria por perder o milhão que estava em jogo. A cara da vice-campeã, quando ganhou o Peugeot, não enganava – estava inconsolável, ou seja, uma propaganda ao contrário para o carro, um tiro no pé para Justus e seu anunciante.  

Renata venceu. Não sei se para uma moça cheia de vida como ela isso é bom. Tomara que não abra mão da própria vida, nem da juventude, nem da espontaneidade e, principalmente, da essência, para virar um capacho robotizado do chefe plastificado. Neste aspecto, acredito que Melina se adequaria mais.  

***


Em tempo: para o elenco da próxima edição, com celebridades, anunciada na final de “O Aprendiz – O Retorno”, Justus declarou que quer famosos de primeira linha. Muito difícil essa escalação, tendo em vista que, que famoso em sã consciência, aceitará passar pelas humilhações das salas de reunião se não estiver muito necessitado? O prêmio seria trabalhar em uma das empresas dele, abandonando, assim, os holofotes? Não deixa de ser minimamente engraçado imaginar Andressa Urach e Monique Evans chegando, de terninho, para mais um dia de trabalho.



Helder Miranda@senhorhelder
Formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), e pós-graduado em "Mídia, Informação e Cultura", na USP (Universidade de São Paulo), Helder Miranda é jornalista, atua como editor do site cultural www.resenhando.com e também como repórter de outros veículos de comunicação. Foi redator de press-releases da Globo Livros, da DCL - Difusão Cultural do Livro, coordenador de redes sociais do selo editorial Tordesilhas e resenhista de literatura no Portal IG. Atualmente, também é estudante de Letras na UniSantos. 



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