01 novembro 2013

Helder Miranda Comenta:
Entre a menina e a mulher há um abismo no meio


Entre a menina e a mulher
há um abismo no meio

Em uma tarefa regida pela emoção, deixar ser conduzido pela racionalidade é um erro. Como aconteceu neste quinto episódio de “Aprendiz – O Retorno”. O programa começou com depoimentos de pessoas que sentem saudade de familiares distantes. Depois, como a equipe “Flecha” ficou desfalcada pelas eliminações, foi pedido um voluntário para deixar a vitoriosa “Sinergia” e integrar o time que vem amargando derrotas consecutivas. Fácil dizer quem iria se voluntariar.

Evandro Banzatto, sedento por mostrar serviço, ainda apagado nesta edição. Talvez por ser o polemista da segunda edição, aparenta ter aprendido alguma coisa e está mais calado, menos impositivo. É seguro por ter uma dicção ótima e realmente acredita que é bom. Mas ainda não me convenceu. Karine Bidart, líder da tarefa pela equipe Sinergia, não se mostrou abalada. “A gente perdeu, sim, uma boa mão-de-obra para este momento, mas como em grupo, como a gente ainda tem bastante gente, não perdemos em qualidade de execução, nem de criatividade”, minimizou.

A liderança da equipe “Flecha” ficou a cargo de Maytê Carvalho, que, neste momento, está focada em uma redenção com o chefe. Por isso assumiu a liderança e ensaia uma mudança de postura. A permanência dela dependerá das próximas atitudes que terá nas tarefas. Assumir uma liderança dentro do olho do furacão é uma tentativa desastrada, mas corajosa, de mostrar serviço. Mas Maytê não se saiu bem-sucedida mais uma vez. Parece que o exército de Brancaleone, citado por ela em uma das salas de reunião, é instrumentado quando ela move suas opiniões. Duas lideranças femininas e dois perfis muito diferentes.

Em qualquer meio coorporativo fora do “Aprendiz”, a comparação entre Maytê Carvalho e Karine Bidart seria desleal, mas como ambas se sujeitaram à competir no mata-mata que é este jogo, vamos a elas. Karine tem inacreditáveis 36 anos, como aponta o site oficial do programa. Até então, eu achava que se tratava de uma menina, na mesma faxa etária de Maytê.  E ironicamente na chamada de Karine, Justus diz que “não basta ser, tem que parecer”. Ou seja, essa mulher, camuflada de menina, nos aproximados dez anos que separam a edição, deve ter passado por poucas e boas, deve ter caído e se levantado e, muito precisamente, deve ter se blindado, pela vida, para ficar novamente diante do olhar inquisitivo de Roberto Justus.

E o que separa Maytê da edição anterior. Alguns anos? Ela, sim, é a autêntica menina. Com 23 anos, aparentando ser mais velha que a candidata de 36, e não pela beleza, que é indiscutível em ambas – mas pela maneira de se blindar. “Eu já era inteligente, mas agora volto mais que inteligente, volto esperta”, declarou ela, ao site oficial. Em sua chamada para o programa, afirma que será uma pessoa mais racional do que na primeira vez, participante aos 18. Mas ela continua uma menina. Ou alguém que, na busca por mostrar que é uma mulher, tenta ser implacável. Muitas vezes, consegue o seu objetivo, quando está disputando de igual para igual. Mas é inofensiva quando encontra uma oponente como Karine, beneficiada pelo tempo e pela vida. Porque cinco anos não fazem tanta diferença quando o assunto é maturidade. Dez, talvez. E é abissal a diferença entre uma menina e uma mulher quando se trata de mexer com emoções.

Porque, justamente quando não era para ser racional, Maytê, que demonstrou ser extremamente passional durante o andamento desta edição, não acessou, desta vez, o seu lado mais aflorado. Quem gosta de Maytê deveria, sinceramente, torcer para que ela perca, para, assim, aprender alguma coisa com isso e levar as lições que só uma segunda chance pode dar. Para fazer um caminho diferente do que vem realizando.

Muitas vezes eu não sinto diferença entre o comportamento de Maytê e de uma garota de 18 anos, e não estou comentando a respeito de sua edição anterior, que não acompanhei. Karine partiu para o outro lado, assumiu a emoção e foi por esse caminho em uma liderança tranquila. Escolheu alguém que não via a avó há sete anos, chorou por não ter visitado o avô falecido, e realizou a tarefa de uma maneira que cumpriu o seu papel, em meio a takes de desentendimentos entre os participantes Jota Júnior, o rei da “expertise”, e Renata Tolentino, que servirão de ganchos para as próximas salas de reunião.

Sete anos separavam aquela mulher que viu a avó pela última vez. Uns bons meses separavam a mulher que não via os familiares, escolhida por Maytê, que conduziu a liderança tranquilamente – ela quer provar que está mudada, mas ninguém amadurece da noite para o dia. Pouco tempo, pouca distância e pouca emoção. E é justamente essa comparação, com perfis tão diferentes, que brilharam neste episódio, cada uma à sua moda.

“Essa prova trata de sonhos de pessoas. Quem? Eu não tenho a menor ideia. E vocês vão ter que usar um programa, que é ligado à uma indústria, que é a indústria do turismo, para realizar um sonho. Alguém que quer conhecer algum destino que nunca teve condições de ir, alguém que quer rever alguém que não vê há muito tempo. Quanto mais emoção tiver nessa tarefa, melhor o trabalho de vocês será avaliado”, disse Justus, muito objetivo. Além de levar uma pessoa para viajar, a tarefa seria documentada em um vídeo emocional.


“Minha preocupação não é com a história em si, mas com a maneira como vamos contar esta história”, explicou Maytê, que claramente estava mais disposta a mostrar sua formação de publicitária do que executar a tarefa. E, mais uma vez, deixou de ouvir as palavras de Justus. Não entendo, sinceramente não entendo, como ninguém falou para ela, com o intuito de salvar a equipe. Aliás, alguém falou, mas, o Jonas Broch, mas como ninguém o levou a sério, foi o demitido da vez. Eliminação injusta, porque toda a sala de reunião estava errada. A impressão era que Maytê levou alguém que considera forte, como Mariana Marinho, que sempre se coloca muito bem, com o objetivo claro que de o rapaz, um ótimo executor, segundo as palavras de Mariana, fosse eliminado.


Na sala de reuniões, Maytê chorou mais uma vez, ao admitir, tentando transformar a derrota em uma maneira simpática de ser humilde, que o outro grupo foi melhor. Faltou paciência ao grupo de buscar uma personagem melhor, e perceber que o encantamento de um circo serve apenas para alguns enquadramentos bacanas se não há história para contar. Isso se deve a Evandro, que deu o aval. E como uma menina de 23 anos vai discordar de um homem de 41, cheio de si? Na idade dela, eu também compraria a ideia, mas, diante do resultado, o colocaria na sala de reuniões. Guilherme Séder, que fez umas fotos horrorosas e imagens que tiveram de ser cortadas pela baixa qualidade do som também foi poupado. A cada programa, está se mostrando um pouco pior do que eu imaginava. A cada tarefa, mostra, com clareza, que faz tudo pela metade.


Karina Ribeiro, a vice-campeã que vem irritando pela apatia, mostrou que esse tipo de comportamento pode estar com os dias contados, justificando porque não utilizou no vídeo as imagens captadas por Guilherme. “Não dava para utilizar as cenas que chegavam para a gente. Muito ruins”, disse, exaltada. “Não, não eram ruins, não”, discordou o autor das cenas. Disse ele, falando por cima de Karina a mesma frase CINCO vezes. Aham. “Muito escuras, não dava para ver o personagem, tinha ruídos, a gente teve que fazer um tratamento de áudio, porque não dava para escutar nossa personagem falando!”. “Que dava, dava”, rebateu ele, no mesmo discurso vazio. É um exemplo à parte, de como a maturidade pode não surtir efeito algum, ou fazer com que as pessoas tentem encobrir as próprias falhas nas atitudes dos outros. Maytê, aos 23, ainda pode crescer. Mas um marmanjo de 33? A líder ainda disse que chorou, emocionada, na sala de reunião. “Deve ter chorado de raiva”, rebateu Justus.

“Eu me sinto realmente frustrado por participar de uma série de decisões estratégicas, de colocar minha cara na reta, na linha de frente e tudo o mais, e agora, pessoas que ficam comentando e vão com o fluxo querem me acusar de uma série de coisas”, esquivou-se Séder, mais uma vez. “Que decisão estratégica que você participou, Gui?”, respondeu Karina, que não abre a boca, mas quando diz alguma coisa é certeira. Questionado, Séder não responde, apenas se debate e fala mais alto. Maturidade assim, melhor continuar criança.


Helder Miranda@senhorhelder
Formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), e pós-graduado em "Mídia, Informação e Cultura", na USP (Universidade de São Paulo), Helder Miranda é jornalista, atua como editor do site cultural www.resenhando.com e também como repórter de outros veículos de comunicação. Foi redator de press-releases da Globo Livros, da DCL - Difusão Cultural do Livro, coordenador de redes sociais do selo editorial Tordesilhas e resenhista de literatura no Portal IG. Atualmente, também é estudante de Letras na UniSantos. 



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